Sou um estudioso das obras do Dr. Russell Norman
Champlin e plenamente convicto de que a divulgação de seus livros, do conteúdo
revolucionário de suas idéias é uma tarefa dignificante. Faz um bem a cultura
brasileira, dignifica e enriquece a cultura teológica latino-americana. É uma
poderosa ferramenta capaz de qualificar, robustecer as pregações nos púlpitos
atualmente reduzidas a decoreba e justaposição de passagens bíblicas fora de
contexto e interpretação. Minha recomendação é que, não apenas obreiros,
pastores, estudantes, mas todos os cristãos possam examinar, devagarinho,
respeitosa e inteligentemente as obras do Professor Russell Norman Champlin.
Fui aluno de um missionário batista regular, fundamenalista
por convicção, que possuia e fornecia as melhores referências do Dr. Champlin,
tendo sido colegas de faculdade e amigos por longa data. O Rev. C. A. Nickell
faleceu recentemente nos Estados Unidos. Ele sempre destacou a agilidade
intelectual, a responsabilidade acadêmica e a inegável erudição do jovem
Champlin. A obra de Russell Norman Champlin sofre uma evolução, comum no curso
de uma vida que vai amadurecendo e da qual nenhum ser humano escapa. Um ponto
freqüente nos seus escritos e que, o fanatismo impede nossa mocidade recém
formada em seminários e faculdades de teologia (questionáveis) é a presença do
amor cristão, do princípio universal da tolerância, da colaboração, do
entendimento do divino e do eterno. Champlin é o teólogo do amor. Extrai isso
da sua experiência, que é a experiência da humanidade, do seu disciplinado
esforço intelectual e do reconhecimento de que qualquer forma de conhecimento
terreno sempre será humano, limitado e sujeito a revisão, felizmente.
Quis o destino que esse “apóstolo do amor e do
preparo intelectual teológico” realizasse sua tarefa predestinativa a partir do
Brasil. Se não fosse escandalizar os leitores, uns já odiosos com a obra do
autor de “Antigo Testamento Interpretado”, eu diria, que karma. Somos o país
avesso ao estudo. A população brasileira é a que menos compra livros e pouco
lê. Triste quadro. Na maioria das igrejas evangélicas se cometem dois erros,
aparentemente distantes, mas tão próximos em termos de armadilhas da
ignorância: ninguém lê, nem ao menos a Bíblia ou se decora, se papagaiam
passagens doutrinárias, isoladas, sem história, sem contexto, sem
interpretação, como se a Bíblia fosse um livro de mágica, caído do céu
encadernado, traduzido pelo Espírito Santo ou algum anjo. Dois males terríveis,
o primeiro porque afasta qualquer possibilidade de crescimento espiritual e intelectual
e o outro por confunde decoreba, transposição textual, aplicação incorreta e
indevida de passagens, com fidelidade ao texto escrito.
O Dr. Champlin e pouquíssimos dos seus críticos
pertencem à esfera do ensino universitário, acadêmico, onde se ensina, se exige
e se pratica sistematização de teses, responsabilidade conceitual, discussão de
idéias, posição e contraposição, consulta a variedade de fontes e espírito
investigativo. Os livros de Champlin, escritos sob o rigor do ensino
científico, da responsabilidade profissional e intelectual caíram na seara do
espontaneísmo, do analfabetismo, da falta de leitura, da fé cega e sem
investigação e da crença vulgar. Maioria
dos nossos seminaristas, pastores, jamais aprendeu o caminho percorrido do
texto sagrado, os originais, da cultura nos quais foram produzidos, da história
eclesiástica, da gramática histórica, da universalidade do conhecimento. Foram
ensinados, como na Idade Média, que aquilo que está ali sempre esteve e qualquer
pergunta é pecado mortal que conduz sem demora ao inferno. Nesse sentido, um
confronto respeitoso e honesto com os escritos do Dr. Russell poderá elevar o
nível do nosso conhecimento, subsidiar os nossos pastores e obreiros para um
conhecimento mais histórico, real, proveitoso e prático nas comunidades. Aqueles
que registraram a Deus como sua propriedade não apreciarão as provocações de
Champlin, em compensação, continuarão se digladiando, quais as denominações que
de fato possuem Deus. Para termos cristãos inteligentes e prósperos, é
indispensável voltar-se para a exposição teológica encontrada nos livros
expositivos de Champlin. Sem dúvida.
O ex-misssionário batista longe de ser um apóstata,
embora esse vocáculo se aplique a todos, dependendo sempre do lado que se
analisa, é um apóstolo de Cristo. Estamos diante de um grande homem, rico não
apenas em conhecimento, mas dono de uma humildade que faz sofrer as
prepotências dos nossos pastores modernos, cheios de estupidez e burrice e
vaidosos por serem ignorantes em sobra. Lidamos muito mal com as controvérsias
no Cristianismo. Fazemos de contas de que não existem. Dançamos e brilhamos
numa falsa unidade. A maioria das passagens bíblicas em cujos comentários
Champlin tanto escandaliza o fundamentalismo doentio, de há muito deixam de ser
unanimidade entre nós. Autores cristãos famosos e respeitados no mundo
teológico conservador assinalaram a aceitação de correntes interpretativas
diversas das que alguns grupos denominacionais entendem como correto ou não. É só
não fecharmos os olhos de propósitos como os touros. O exemplo citado da
passagem de 1 Samuel 28. Teólogos de renome, cujas vinculações com outros ismos
religiosos sempre estiveram fora de cogitação, já deixaram bem claro a
possibilidade de abraçar a crença de que Samuel de fato apareceu. Por exemplo,
C. I. Scofield, uma espécie de papa dos dispensacionalistas, que jamais pode
ser confundido com um teólogo espírita, admite essa possibilidade. Por que se criminaliza a análise que Champlin
faz da passagem, sustentado por ampla e inquestionável pesquisa
histórico-cultural?
Esta é apenas uma das tantas passagens que se pode
discutir. O curioso é que, fazemos o mesmo caminho em passagens que colocam
nossas denominações em situação de constrangimento, como 1 Timóteo 2:8-10 ou 1
Coríntios 11 e 14. Mas criticamos, recusamos Champlin em outras fazendo o
mesmo.
Outra coisa, e a discussão promete ser longa e
enfadonha. O que consideramos Teologia (ciência do Sagrado em perspectiva
universal) com formação denominacional em Seminário. O teólogo pode e deve
fornecer a quem lhe pergunta todas as possibilidades que o progresso do
conhecimento religioso e teológico proporcionou aos homens a respeito daquele
assunto. Por exemplo, como teólogo, ao ser perguntado sobre o que acontece ao
homem depois da morte física, devo com toda honestidade colocar diante do meu
entrevistador as teorias católicas, evangélicas, espíritas, animistas,
xintoístas, budistas. Se sou padre então justifico a posição católica, se
pastor a prostestante, mas o teólogo deve fornecer um leque maior de
possibilidades. Precisamos entender que Teologia não é algo restrito ao
Cristianismo. O Teólogo não existe só dentro do dogma e do limite cristão. A
Teologia é universal, abrangente, não excludente. A obra de Russell Champlin é teológica.
Material de apoio. Deve ser examinada. Fornece riqueza de detalhes, aponta a
história de todas as crenças, cuja realidade, independe de aceitarmos ou não. Toda
doutrina, todo ensinamento, toda interpretação tem uma história a partir de
quem escreveu e interpretou pela primeira vez. Isso não pode ser negado. Como
isso aconteceu, nenhum comentário melhor do que Champlin faz. O texto bíblico
tem uma trajetória, há um como chegou até nós. Eu me sentiria falso se omitisse
dos que me ouvem as polêmicas para se constituir o Cânon das Escrituras, os
debates, as preferências humanas a respeito dos livros bíblicos ou as
controvérsias teológicas que existiram desde e entre o grupo apostólico, nem
sempre perceptíveis aos olhos superficiais de quem lê a Bíblia como se ela não
tivesse acontecido dentro da História humana. É o espírito diabólico do
antiintelectualismo que Champlin denuncia e todos devemos fazê-lo, pelo menos,
os estudantes sérios.