segunda-feira, 24 de junho de 2013

Antonio dos Passos Pereira: o universalismo de Russell Norman Champlin

O UNIVERSALISMO DE CHAMPLIN

Apesar de ser um dos teólogos mais consultados no Brasil e seus comentários de “Antigo e Novo Testamentos Interpretados Versículo por Versículo” serem muito usados no meio evangélico, sua posição sobre a salvação não é nada ortodoxa. Champlin se defende dizendo que sua concepção não é o universalismo absoluto, mas ele mesmo afirma em seu debate sobre o assunto com John Bentes, que:

Embora nem todos os seres humanos venham a ser redimidos, ainda assim há uma abençoada obra de restauração para todos os não-eleitos, que também é uma gloriosa obra do Redentor-Restaurador.1

Crendo que os benefícios da Expiação serão aplicados de forma diferenciada a todos os homens de todas as épocas e do mundo inteiro, Champlin estabelece uma diferença entre a redenção dos eleitos e a restauração dos não-eleitos.

A redenção inclui os mais elevados benefícios decorrentes da Expiação e se destina aos eleitos. Somente os eleitos a experimentam, tendo participação na imagem e natureza divinas e dos atributos de Deus. Os eleitos por ocasião da glorificação passarão por intermináveis estágios de glória e serão grandes em poder. Apenas um número muito pequeno de pessoas está incluído entre os eleitos.

A restauração, portanto, inclui todos os não-eleitos, seres não-humanos e coisas da criação. Neste nível os não-eleitos experimentarão benefícios inferiores da Expiação em relação ao eleitos. Eles não compartilharão da natureza divina, mas receberão vantagens que serão consideradas como perda em relação à glória dos crentes. Eles também se desenvolverão em níveis sucessivos de glória e terão utilidade a serviço de Cristo, mas jamais alcançarão o nível dos eleitos.

Champlin descarta a idéia de um julgamento retributivo. Para ele o julgamento tem o alvo de restaurar os perdidos. No entanto o julgamento não é remidor, será eterno como privação da redenção, mas não pode ser visto em termos de sofrimento. A idéia de inferno e sofrimento é tida por Champlin como “a maior distorção da verdade jamais vista em toda a história da Igreja.”2

É incoerente a idéia de uma restauração generalizada da raça humana, visto que o próprio Cristo ensinou a doutrina da condenação eterna do impenitente. Paulo, na carta aos Romanos, também usada pelos universalistas para defender a restauração universal, afirma que Deus retribuirá a cada um segundo o Seu procedimento (Rm. 2:5-9), concedendo aos ímpios tribulação e angústia em oposição à vida eterna que será dada aos crentes. Assim ele contraria tanto a possibilidade de uma restauração total como de um julgamento não-retributivo.

Não procede também a afirmação de que o amor de Deus seja incapaz de punir o pecador por causa de Sua justiça, quando as Escrituras afirmam que Cristo morreu para cumprir a justiça da lei e que o pecador é passível de punição por causa de sua culpa. As mesmas Escrituras que exaltam o amor divino, não deixam por menos Sua ira que se manifesta contra a impiedade e perversão dos homens (Rm. 1:18).

Sobre o que afirmam a respeito de restauração na eternidade, Hb. 9:27 deixa claro que após a morte vem o juízo. A Bíblia não ensina em nenhuma de suas partes a restauração além túmulo. As possibilidades de redenção são restritas à vida, quando o pecador pode receber por meio da fé a salvação em Jesus Cristo. Portanto, não é coerente com o ensino bíblico a afirmação de que todos os homens serão salvos, quer seja em vida quer após a morte. Especialmente o Novo Testamento é claro quanto à reprovação definitiva do pecador que não crer para a salvação.

O universalismo tem uma visão muito romântica do caráter de Deus, especialmente no que diz respeito ao Seu amor. Esta tentativa humana de explicar o propósito e a extensão da Expiação fora do que o ensino essencialmente bíblico e evangélico prega, reflete o desejo de cada evangelista compassivo que almeja a salvação de cada ser humano que se perde nas trevas do pecado. Humanamente falando, o universalismo seria perfeito, se fosse bíblico. Roger Nicole, teólogo reformado e defensor da ortodoxia cristã, revela sua empolgação pelo universalismo se este pudesse se comprovar bíblico, ao afirmar:

Eu seria imensamente feliz se as Escrituras pudessem ser interpretadas de forma a revelar que todas as pessoas serão salvas. Seria maravilhoso, e eu me alegraria sem nenhum tipo de constrangimento. 3

E prossegue:

Mas simplesmente não parece possível ver as Escrituras desta forma. Deus deixou muito claro que haverá um julgamento no qual algumas pessoas serão salvas e outras perdidas. Ao reconhecer isto, evangélicos de qualquer linha teológica concordam que no final haverá algumas pessoas perdidas e que, portanto, a obra de Cristo de fato não efetua a salvação da totalidade da raça humana.4

1 CHAMPLIN e BENTES, 1991, p. 679.
2 CHAMPLIM, 1995, p. 539-540.
3 NICOLE, 2002, p.59.
4 Ibidem.

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