Deixo de nominar os preconceitos e prevenções de alguns líderes denominacionais com a produção acadêmica do teólogo Russell Norman Champlin como teológicos. Em teologia não há espaço para preconceitos, visto que ela estuda o mundo espiritual, o ser supremo à luz das interpretações que percorreram a história da humanidade, se possível de seu início até os avanços científicos dos nossos tempos. O teólogo está obrigado a tomar contato, pesquisar, ensinar todas as interpretações possíveis, ainda que não lhe seja negado tomar a posição que melhor represente o conjunto de argumentos que colheu.
Quando foi lançada a coleção "O NOVO TESTAMENTO INTERPRETADO VERSÍCULO POR VERSÍCULO", custeada pelo próprio Russell Norman Champlin, um dos luminares do pensamento fundamentalista, Jerry Leonard, do Seminário Batista do Cariri, escreveu uma crítica acadêmica e não rancorosa a respeito do comentário inédito na língua portuguesa, admitido pelo próprio teólogo do movimento batista regular. Leonard apenas recomendava cuidados aos pastores batistas fundamentalistas em relação a posições assumidas aqui ou ali, em algumas passagens, por Champlin, que segundo ele, se originavam das idéias do movimento modernista que varrera os Estados Unidos. Aquele que se dispusse a ler o comentário na íntegra ou nas passagens controvérsas, cedo se daria conta que era infundada a preocupação do Dr. Jerry, também erudito do idioma grego koinê. Champlin não abraçava crenças modernistas, ao contrário, se opunha a tantas delas. Mesmo assim, o fundador do Seminário Batista do Cariri, considerava valiosa a contribuição de Champlin ao traduzir comentários bíblicos inéditos, que ainda estavam na língua inglesa, tanto quanto a exposição da maioria das palavras do Novo Testamento grego que, em português, não tinham produzido igual. Ou seja, reconhecia que a obra teológica de Champlin é "de referência", para consulta. Não se trata de um livro-declaração de fé. Seus comentários não tem a pretensão de serem um catecismo doutrinário, até porque o próprio autor, não aprecia fazer escola, ampliar seguidores e discípulos e que nem é discípulo de algum pensador ou corrente teológica.
Prestemos atenção ao efeito positivo que teve a reação contrária e equivocada com a produção acadêmica do teólogo brasileiro. Champlin deixou com a sociedade brasileira, com as escolas de formação, com os pastores e religiosos, na tradução, a contribuição de comentaristas abalisados e famosos no decorrer dos séculos, como John Gill, Adam Clarck e John Flipse Warwood. Estes comentários estão disponíveis em língua portuguesa, talvez, numa tentativa de bloquear a influência de Champlin na formação dos pensadores cristãos brasileiros, no entanto, as edições trazem comentários descontextualizados, defeito que está corrigido na obra champliana, dado o profundo conhecimento que ele possui da nossa cultura e das nossas necessidades.
As controvérsias nos comentários, que desagradam as lideranças religiosas denominacionais, não aos teólogos porque o espírito crítico, a diversidade e o debate marcam os afetos à esta ciência social, são diversas. Quando o preconceito vem do religioso, sem estudo profundo, sem conhecimento de história cristã e sem conhecimentos de arqueologia, mínimos que sejam, o desprezo aos argumentos de Champlin soam como fechar os ouvidos para reconhecer a falta de coragem de se contrapor as idéias do autor. Nossas escolas de formação de pastores não possuem sólida, sistemática e acadêmica matéria de História e Filosofia da fé cristã. Pastores e não especialistas, costumazes à pesquisa se apoderam do seu conteúdo. Essa inapropriedade faz com que Champlin seja tratado à luz de acoplação de versículos e trissículos, conforme escreveu o dramaturgo, Mauro Santos.
Quais seriam estas controvérsias? crenças espiritualistas, desagrado aos calvinistas e arminianos, milenarismo, inerrância e infalibilidade das Escrituras. As coisas se alongam. Só para destacar a relevância da posição de Champlin e o risco de ignorarmos as posições e teses que emergem de seus "Comentários", menciono a doutrina da reencarnação. Russell Norman o faz como teólogo. Poderia um pastor fundamentalista suprimir a informação de que a reencarnação foi sempre uma crença recorrente no judaísmo antigo? Nada recomendável, porque sempre falamos das tradições dos fariseus e dos saduceus, sem qualquer parcimônia, mas seria bom que pudéssemos contar aos nossos ouvintes. No entanto, o teólogo, que trabalha com a produção do conhecimento filosófico-religioso, que constata através da pesquisa documental, arqueológica e cultural, não deve fazê-lo, sob a pena de ser desonesto intelectualmente. Conforme o rabino Dor Leon Attar, dorleonattar1@gmail.com a crença na reencarnação foi sempre parte integrante e fundamental da fé judaica e os rabinos, em sua tradição paralela, criam que os personagens bíblicos (Noé, Abraão, Moisés, Davi) foram reencarnações. Dr. Russell não criou essa posição, que durante a história, foi negada por certos segmentos do cristianismo. Os comentários do autor de "Os últimos quarenta anos finais da Terra" simplesmente colocam o estudioso diante desta informação, mas não o induz a acreditar. Entretanto, como homens responsáveis pela fé e pela busca da verdade, não devemos esconder do povo, que apesar das nossas preferencias doutrinárias, gostando ou não delas, na história se verificaram. Quem desejar conferir: http://www.youtube.com/watch?v=o_mdEKeRqjA.
Dor leon não é rabino meu caro amigo.
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